Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Férias

A vida é dura, muitas vezes opressora, e isto vale principalmente em uma metrópole como São Paulo, uma cidade que parece não descansar nunca, inclusive nos domingos, e que também parece impor dificuldades maiores do que em outras cidades. O rolo compressor do nosso cotidiano muitas vezes leva a nossa paz e alegria, e se deixarmos, também a nossa saúde.

Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol? (Eclesiastes 1:3)

Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol. (Eclesiastes 2:11)

O trabalho, contas para pagar, o estresse do trânsito [1], as diversas preocupações que nos afligem, todas estas coisas contribuem para que não poucas vezes percamos de vista aquilo que realmente importa, as referências que nos dão esperança e apoio. Muitas vezes esquecemos que a vida é muito maior do que os problemas que possamos ter no trabalho, do que nossas dívidas, nosso estresse e nossas preocupações; e pior: muitas vezes esquecemos até que, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, a nossa vida não significa apenas todo o (curto) tempo que passamos "debaixo do sol" mas vai muito além disso.

Por isso o período de descanso é tão importante; o momento quando simplesmente paramos, desaceleramos, buscamos paz e tranquilidade. As pessoas fazem isso à sua maneira, variando dependendo daquilo em que acreditam. Eu, de minha parte, vejo que a Bíblia Sagrada fala muito sobre o tema do sábado [2], e já comentei anteriormente o que este conceito significa biblicamente para mim: tempo exclusivo de busca e relacionamento com Deus, que é o Nosso verdadeiro repouso, refrigério, descanso. A busca pela presença de Deus e um relacionamento com Ele, obviamente, deve ser feito em todo o tempo, mas nossas atividades diárias muitas vezes interferem nisso. Por isso é importante, e pelo menos para mim, sagrada a separação de um tempo exclusivo para este fim, o que é feito geralmente aos sábados ou domingos pelos cristãos no mundo todo, na dedicação do Dia do Senhor.

Respondeu-lhe (o Senhor): A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso. (Êxodo 33:14)

(Deus) me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; (Salmos 23:2)

Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. (Mateus 11:29)

Desta vez não demorei muito para fazer a solicitação, e à partir de hoje entrarei em um novo período de férias de 30 dias, e da mesma forma como fiz no meu período sabático anterior, vou procurar meu descanso em Deus, passando um tempo de qualidade com a minha querida esposa e, principalmente, longe do computador. Não fiz nenhum cronograma de leituras de férias, e caso leia algum livro, vou decidir depois [3]. Pretendo apenas terminar o livro que estou lendo atualmente sobre a vida de João Calvino, motivado pelas comemorações de 500 anos do nascimento do reformador.

Que Deus derrame Sua Graça e Misericórdia sobre mim, permitindo com que eu possa descansar Nele neste período, e assim voltar renovado para o trabalho e para os desafios do cotidiano de modo geral.

Bis später. :)

[1] Eu, que não tenho carro, fico intranquilo só de presenciar os engarrafamentos na Marginal Pinheiros, vendo as pessoas perdendo tempo e paciência enquanto paradas dentro dos carros.

[2] "Sábado" é uma transliteração da palavra hebraica que significa "descanso" ou "cessação".

[3] O comentário de Francis Schaeffer da carta de Paulo aos Romanos é um forte candidato.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Breathe - U2 360° Tour

Breathe, abrindo o segundo show deste início da U2 360° Tour, ontem em Barcelona no estádio Camp Nou.

Detalhe para o palco que, na minha opinião, ficou simplesmente demais! :)

'Nuff said!



P.S.: Veja aqui em resolução maior, no site do YouTube.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Vivendo integralmente

Penso que a gratidão a um ser divino superior, e mais especificamente no caso dos cristãos ao Deus que pela fé sabemos ser o Único e Supremo que existe, é muito mais do que uma atitude religiosa e sim uma característica inerentemente humana. Eu em meu trabalho e com certeza muitos outros da mesma forma, diante de algum desafio profissional superado ou de alguma recompensa recebida, agradecemos a Deus pela bênção da vitória alcançada, até mesmo publicamente com os colegas de profissão mais próximos. Claro que não chegamos a nos ajoelhar no meio do ambiente de trabalho fazendo uma acalorada oração de gratidão a Deus [1], mas mesmo assim agradecemos a Ele.

Assim sendo, quando li a notícia veiculada nos últimos dias (veja aqui) sobre a repreensão da FIFA em relação à comemoração religiosa da seleção de futebol brasileira pelo título da última edição da Copa das Confederações, pensei comigo mesmo que particularmente não vejo nada demais se um atleta, após conseguir uma vitória pela qual lutou tanto, mostrar gratidão à Deus, ou ao deus que adora seja de qual religião for. Se um jogador de futebol muçulmano ou budista quiser render homenagens publicamente à Alá ou Buda por sua conquista, isso é assunto dele, e fico especialmente feliz quando vejo um cristão rendendo graças à Deus publicamente. Penso ainda que o contexto profissional artístico/esportivo é, devido ao grau de exposição, diferente do que em um trabalho em escritório por exemplo, e por isso as comemorações podem ser um pouco mais, digamos, extrovertidas.

De qualquer forma até entendo (ou procuro entender) o ponto de vista da FIFA que não quer ver os estádios como palco de plataforma política ou religiosa [2] e por isso procura regulamentar a conduta profissional daqueles que trabalham com o futebol. Acho que a atitude da entidade é bem menos "grave" do que por exemplo a de Dario, antigo rei da Pérsia, que sancionou uma lei que impedia com que o povo dirigisse pedidos a qualquer outro deus a não ser ele mesmo, o que acabou levando o profeta Daniel à prisão por ser pego orando ao Senhor Deus, conforme relato bíblico no livro de Daniel, capítulo 6. Neste último caso a proibição estava bem longe de ser apenas regra de conduta em ambiente de trabalho.

O grande cerne da questão, ao meu ver, e o que me incomoda mais, é que o fato em si e principalmente os comentários que vi sobre a reportagem refletem a velha opinião do mundo moderno que, no final das contas, trata a religiosidade na melhor das hipóteses como algo que deve ser exercido apenas em um contexto privado, nunca manifestado publicamente, relegado à um segundo plano separado da vida secular, como se Deus vivesse dentro de uma sala reservada na cabeça das pessoas com uma placa escrita "religião" ou "espiritualidade" na porta, de forma que ela só seria aberta quando alguém precisasse Dele, para que nos atenda quando quisermos e como (achamos que) precisamos. Na pior das hipóteses, a religiosidade é algo visto como estúpido, ridículo, praticada apenas por pessoas primitivas, de mente fraca e fanáticos, e incapazes de fazer qualquer contribuição relevante no mundo [3], hoje cada vez mais "moderno", "científico" e "racional".

Esta forma de ver a religião [4], para mim, é um dos frutos do pensamento antigo mas ainda largamente adotado hoje em dia, que vê a vida dividida em termos de santo e profano: o que eu faço na igreja é separado, isolado, daquilo que faço em termos de trabalho, cultura, estudos e convívio social. No entanto, a Reforma Protestante ajudou a combater este tipo de pensamento pregando uma mentalidade bíblica que leva em conta uma visão integral, uma cosmovisão cristã que abrange todas as áreas da atividade humana, ensinando por exemplo que o cristão deve viver ativamente em sua sociedade (estarmos no mundo apesar de não sermos dele mas de Deus) e trabalhar para sua transformação social, cultural ou política. Por este motivo contribuições de reformadores como a de João Calvino, são reconhecidas até hoje, não só na área teológica mas também civil.

Não vivo com a crença de que Deus tenha criado um mundo religioso e outro secular, mas sim que Ele tenha simplesmente criado o mundo, de forma integral e boa, por completo em todas as suas esferas, ainda que posteriormente maculado com a entrada do pecado humano. Por isso, procuro viver a minha vida não como se eu tivesse um "lado religioso" mas sim colocando [5] Deus, o amor à Cristo e às Escrituras Sagradas como os fundamentos sobre o qual eu construo minha conduta e visão social, política, cultural, profissional, científica, pessoal, impactando positivamente qualquer lugar que eu esteja, seja no ambiente familiar, com os amigos, no trabalho e mesmo na igreja.

O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. (Salmo 111:10)

Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre. (Efésios 6:5-8)

Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, ... (Colossences 3:23)

Pensando bem, acho que seria bem mais fácil ter um "lado religioso" e seguir vivendo assim do que tentar construir uma visão integral conforme a fé cristã reformada ensina e tentei descrever aqui. Contudo, não acho que seja uma atitude correta, sadia e que agrade a Deus. Tentarei caminhar pelo outro rumo mesmo.

[1] Pelo menos nunca soube nenhuma história de algum católico carismático ou evangélico/protestante fazendo algo do tipo.

[2] Quero crer então que a entidade repreenderia um atleta vestindo uma camiseta com os dizeres "I love Jesus" da mesma forma que repreenderia outro vestindo uma camiseta com os dizeres "Free Aung San Suu Kyi". Não vale dois pesos e duas medidas, FIFA.

[3] [ironic] Lutero, Calvino, Leibniz, Pascal, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, entre outros cristãos religiosos do passado, coitados, todos burros, cujas vidas e trabalho não impactaram em nada a nossa sociedade. Oh, dó! [/ironic]

[4] Em tempo: alguns, mesmo crentes, generalizam a palavra religião automaticamente colocando nela uma conotação negativa, relacionado-a com algum tipo hipocrisia farisaica, algo que não concordo.

[5] Colocando ou tentando colocar; sou humano e cometo erros, junto com todo o restante de 100% de minha espécie :)

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Sophie Scholl

Aviso: comento sobre a vida de uma importante figura da história recente da Alemanha, e sobre o filme feito baseado em sua vida. Não considero por isso que "entreguei o final" de nada; mesmo assim, o aviso está dado.

C. S. Lewis, em seu excelente livro Cartas de um diabo a seu aprendiz (título original: The Screwtape Letters), ilustra de forma criativa e divertida uma importante lição sobre a ação diabólica no mundo, quando seu personagem diabo-professor Fitafuso ensina ao seu sobrinho-diabo-aluno Vermebile que um dos pontos fortes da influência maligna é o uso de uma propaganda prática que coloca jargões ou mesmo ideias contraditórias na cabeça das pessoas, impedindo assim com que elas pensem na veracidade e realidade das coisas por meio do raciocínio, da argumentação. Raciocínio e argumentação, explica Fitafuso, podem fortalecer e conduzir o homem ao campo "inimigo", no caso, a Deus.

Não acho de forma alguma, e creio eu tampouco o autor, que a propaganda é uma atividade maligna. No caso, penso que Lewis apenas mostra uma área em que as forças do mal definitivamente não sabem trabalhar, ou seja, com a Verdade, algo que confere com o que Nosso Senhor Jesus Cristo disse sobre o Diabo, à saber, que ele é o pai da mentira, e ao mentir, faz apenas o que lhe é próprio (Jo. 8:44). E quando utilizada de forma errada, para fins escusos, a propaganda torna-se uma ferramenta importante, dentre outras, que o Inimigo e seus servos usam para enganar, roubar, matar e destruir, atividades estas também associadas por Cristo à Satanás (Jo. 10:10).

Podemos ver como o século passado exemplifica o uso perverso desta atividade quando pensamos na propaganda nazista, suas influências na cultura e mente do povo alemão e consequentes resultados desastrosos, articulada pelo orador Josef Goebbels, destaque no partido nazista e posterior Ministro da Propaganda do Reich, responsável pela criação da imagem messiânica de Hitler e um dos propagadores da idéia da raça superior [1] e da inferioridade e culpabilidade dos judeus. Neste período sombrio da história alemã alguns ousaram se posicionar contra a política nazista e pagaram com a vida por isso, como é o caso dos irmãos Hans e Sophie Scholl.

Jovens inteligentes, religiosos protestantes, estudantes da Universidade de Munique, ficaram horrorizados ao descobrirem como doentes mentais, com ou sem consentimento da família, eram mortos como parte da política de eugenia nazista. Diante destas e outras crueldades, que eram os verdadeiros frutos do Nazismo, eles ingressaram junto com outros estudantes em um grupo de resistência pacífica chamado Weiße Rose ("Rosa Branca" em português), que promovia grupos de discussão na Universidade e panfletagem, opondo-se de forma não violenta ao Terceiro Reich por meio da exposição dos erros e da denúncia das atrocidades do governo de Hitler, inclusive citando os campos de extermínio de judeus. No início de 1943, ao tentarem colocar panfletos antinazistas na Universidade sem serem vistos, acabaram sendo descobertos, presos, rapidamente julgados e condenados à morte.

Mediante recente disponibilização dos registros históricos da prisão dos irmãos Scholl foi produzido na Alemanha o filme Sophie Scholl – Die letzten Tage ("Sophie Scholl - os últimos dias" em português), vencedor de vários prêmios e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005, cujo DVD tive o prazer de receber na semana passada via encomenda na Amazon, já que a edição brasileira entitulada Uma Mulher Contra Hitler não se encontra mais disponível para venda. O filme mostra os últimos dias de vida de Hans e Sophie Scholl, interpretada pela premiada atriz Julia Jentsch, desde os momentos que antecederam à sua prisão, passando pelo interrogatório, julgamento e o momento da execução dos irmãos, condenados à morte sumariamente pelos nazistas sem terem direito à uma defesa decente.

O filme é uma bela produção e já entrou para a minha lista de favoritos não só pela qualidade da reconstrução histórica mas também por mostrar a heróica atitude deste casal de irmãos, e especialmente de Sophie que não se dobrou, nem nos interrogatórios nem no julgamento, diante de todas as falsidades veículadas pelo governo; um embate entre a irracionalidade e a razão, a mentira propagandista e a verdade. Quando confrontada pelas suas atitudes, Sophie denuncia as práticas imorais do regime que causam sofrimento aos mais fracos, aos judeus e ao próprio povo alemão, impactando tanto os presentes em seu julgamento quanto até mesmo o experiente oficial da Gestapo encarregado do seu interrogatório. Os nazistas, segundo ela, são assassinos, imorais, e estão levando a Alemanha à vergonha e à derrota.

Algumas cenas do filme, ao meu ver, ajudam a retratar Sophie como uma autêntica profetisa no melhor estilo bíblico da palavra. Semelhantemente como os antigos profetas de Israel e o próprio Cristo fizeram, ela denunciou as injustiças, o esquecimento da moralidade e de Deus, lutou pela verdade, predisse a vergonha e a derrota futuras da Alemanha, sofreu represálias por estas coisas, mas colocou suas esperanças Nele. Achei muito bonito ver as cenas que mostram ela orando a Deus na prisão pedindo o Seu auxílio, e particularmente, pouco antes de morrer, o momento quando ela garante à sua mãe que se encontrariam de novo na eternidade, no que ela responde: "não se esqueça de Jesus, Sophie".

Como disse anteriormente, Uma Mulher Contra Hitler [2] não se encontra mais disponível para venda, contudo, este filme pode ser encontrado nas melhores locadoras do país. Recomendo-o muito; um ótimo trabalho que nos leva à reflexão de até onde estamos dispostos a ir por aquilo em que acreditamos.

[1] A influência da filosofia de Nietzsche sobre a ideologia nazista foi discutida em um trabalho de uma acadêmica da Universidade de Sorbonne chamada Abir Taha, cujo livro adquiri, li e gostei muito, e que pode ser visto aqui. Este trabalho já foi traduzido para o português e pode ser encontrado aqui.

[2] Preferia que tivessem mantido a tradução do título original...

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

E agora? O que devo fazer?

Kevin DeYoung, co-autor do livro Why We’re Not Emergent [1], publicou recentemente em seu blog uma ajuda pastoral para, no caso, prestar auxílio a todos aqueles que de repente percebem que sua igreja tem se tornado cada vez mais emergente [2] e não sabem o que fazer.

De qualquer forma, as sugestões apresentadas são muito úteis não só em relação à este assunto em particular mas também podem ser aplicadas em outras situações caso alguém sinta que, infelizmente, sua igreja não está mais em sintonia com a sã doutrina bíblica. É uma boa ajuda, visando sempre atitudes racionais e pacíficas, cuja primeira das nove sugestões que apresenta é: avalie-se, pedindo para Deus mostrar suas reais motivações. Suas preocupações são mesmo motivadas pelo amor à verdade, à Palavra de Deus e à Igreja, ou na verdade é um amor à controvérsia?

Esta ótima mensagem pastoral pode ser acessada aqui.

[1] Cuja leitura pretendo começar em breve, como já disse aqui.

[2] Caso alguém abra este link, eu recomendo não só a leitura do post em si mas também dos comentários posteriores.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Algoritmos, minha gente!

De tempos em tempos me solicitam ajuda com a correção de algumas provas de admissão na empresa onde eu trabalho. Percebi um traço comum em algumas delas: parece que hoje em dia os estudantes de computação se preocupam mais em conhecer os maravilhosos padrões de projetos de software mais usados e as tecnologias mais "quentes" do momento, principalmente aquelas relacionadas com a plataforma Java como J2ME, JSF, Spring, EJB, etc, mas se esquecem de treinarem a simples lógica de programação.

E o resultado disso: não conseguem nem colocar um simples nó no meio de uma lista duplamente encadeada.

Meu povo, não se esqueçam dos algoritmos e estruturas de dados! :)

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

A História do Universo DC

Grandes momentos dos quadrinhos (norte-americanos) ocorreram na década de 1980, com histórias, sagas e séries que marcaram época e ajudaram a redefinir personagens e mesmo o gênero em si: Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons; Batman: The Dark Knight Returns, de Frank Miller; Superman: Whatever Happened to the Man of Tomorrow? e Superman: For the Man who has Everything (vide aqui), novamente de Alan Moore; a passagem de John Byrne pelo título dos X-Men [1] como desenhista, com as excelentes histórias The Dark Phoenix Saga e Days of Future Past, assim como sua passagem pelo título do Quarteto Fantástico como artista e escritor, trazendo a Mulher-Hulk para o grupo; até mesmo Secret Wars, que pode não ser uma unanimidade entre os fãs, mas representou um momento importantíssimo na vida do personagem Homem-Aranha, quando ele ganhou seu famoso uniforme negro.

Que época! E dentre estes grandes momentos, uma maxi-série escrita por Marv Wolfman e desenhada pelo mestre George Pérez é um verdadeiro divisor de águas na história da DC Comics, além de ser uma das minhas histórias prediletas [2]: Crisis on Infinite Earths, publicada no Brasil como Crise nas Infinitas Terras, que redefiniu toda a cronologia do Universo DC. Um trabalho gigantesco que eliminou todos múltiplos universos da editora, o Multiverso, com seus heróis próprios e versões alternativas de heróis famosos, criando assim um único universo, com uma única Terra e uma única linha de tempo. Um reinício com reformulações nas origens de seus principais heróis, apresentando-os assim para uma nova geração de leitores.

Worlds lived. Worlds died. And the DC Universe was never the same! :)

Uma única continuidade, uma única cronologia menos complicada; pelo menos, em teoria. A série, por exemplo, e na minha opinião, causou um problema enorme nas histórias da tradicional Legião dos Super-Heróis, cujos efeitos são sentidos até hoje. Além disso, personagens de outras Terras, alguns deles representando na verdade as diferentes aquisições de outras editoras pela DC ao longo do tempo, foram integrados nesta continuidade única. O Universo DC, cuja longa história já não era simples, precisava de explicações neste novo cenário.

Por isso, em 1986, dando seguimento à publicação da Crise, a DC lançou The History of the DC Universe, um guia da cronologia oficial da DC pós-Crise, apresentando aos leitores a nova história do mundo dos heróis, desde a criação e pré-história até o futuro longínquo, narrada pela personagem Precursora. Este trabalho, também da dupla Wolfman e Pérez, foi finalmente publicada no Brasil neste mês pela Panini Comics na excelente edição A História do Universo DC (vide aqui).

Considero-me um conhecedor pelo menos de nível intermediário da DC, mesmo com todas as confusões de sua cronologia, mas a leitura mesmo tardia deste trabalho fez com que eu entendesse melhor alguns pontos da continuidade, além de conhecer a origem de alguns heróis e vilões que eu não conhecia. Mas não apenas isso: esta obra, que integra toda a história de um universo fantástico de uma editora de quadrinhos, mostra como são variadas as fontes que servem de inspiração para personagens e histórias do gênero, indo desde mitologias de povos antigos (grega, nórdica ou egípcia), lendas de reinos perdidos (como a da ilha da Atlântida), passando por guerreiros, piratas, cavaleiros, magos, vampiros, lobisomens, cowboys, samurais e ninjas, indo até os grandes temas explorados pelos livros de ficção científica em geral como viagens no tempo, viagens interdimensionais, evolução humana à um nível semidivino, civilizações extraterrestres, robôs, clones, "Terra oca" (vide aqui), desenvolvimento tecnológico, conquista do Espaço Sideral, futuros apocalípticos ou utópicos, etc. Grande parte do imaginário humano acumulado ao longo dos séculos se faz agora também presente nas histórias dos super-heróis, e será que não é correto afirmar que com isso não são comunicadas também a visão de mundo, ideias e princípios associados com este imaginário? Como creio que isso acontece com qualquer história, os quadrinhos ao meu ver não fogem à regra.

Recentemente li um bom livro (que já comentei aqui), cheio de referências, que analisa as mensagens de histórias sci-fi veículadas em livros, quadrinhos e cinema, associando-as com sistemas de pensamento que propõem um tipo de espiritualidade e visão de mundo diferentes daqueles pregados pelo Cristianismo bíblico. De minha parte, obviamente que eu não espero encontrar doutrina cristã reformada quando leio algum gibi, ou livro, ou vejo algum filme, e entendo que grandes mitos ou idéias do passado alimentam nossas histórias de hoje; só sinto que, como cristão, é bom estar atento àquilo que consumo, para filtrar aquilo que é bom do que é ruim e até mesmo para orientar as pessoas com quem convivo, sejam irmãos na fé em Cristo ou não.

Desde a publicação da Crise muita coisa aconteceu no Universo DC, e por este motivo a Panini também incluiu nesta edição como bônus a recente série escrita e desenhada por Dan Jurgens chamada História do UDC, que revisita todos os eventos desde a Crise até Infinite Crisis (Crise Infinita [3] no Brasil), além das origens dos principais heróis desenhadas por grandes artistas.

Parabéns à Panini por esta excelente publicação. É uma ótima companhia à grande saga Crise nas Infinitas Terras.

[1] A elogiada parceria de John Byrne e Chris Claremont iniciou-se na edição 108 da revista dos X-Men, em Dezembro de 1977.

[2] Às vezes acho que ela é mesmo a minha HQ favorita. Pelo menos, se eu pudesse escolher as minhas três prediletas, ela estaria lá com certeza.

[3] Haja tanta crise! E ainda falta a controversa Final Crisis que está chegando agora no Brasil. Como dizia um antigo colega de trabalho: é a "crise das infinitas crises" da DC. :)