Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Lewis e anatomia de uma dor profunda

Ao escrever o prefácio de A Anatomia de uma Dor, a escritora Madeleine L'Engle afirmou tê-lo lido da primeira vez com um certo distanciamento, e de uma maneira mais profunda e impactante só após o falecimento do seu marido. Talvez tenha acontecido o mesmo comigo. Achei este curto livro mais um ótimo trabalho de C. S. Lewis, como não esperava ser diferente, mas desta vez não se tornou um dos meus preferidos. Não por demérito do autor, de forma alguma, mas sim porque, apesar de viver já há algum tempo um momento pessoal difícil na minha vida, ainda não passei por um pesar tão profundo quanto o dele, ou o de Madeleine, a ponto de conseguir me identificar inteiramente com o seu relato.

Conforme havia comentado no post anterior, anos após ter escrito O Problema do Sofrimento, publicado em 1940, onde analisou a dor e o sofrimento humano com sua habitual clareza de raciocínio, e apesar de nunca ter se considerado isento de sofrer ou tivesse dito que nunca sofreu, C. S. Lewis sentiu de maneira muito forte como uma coisa é falar sobre o sofrimento, e outra bem diferente é vivenciá-lo, ao perder sua amada esposa Helen Joy Davidman, morta devido a um câncer que sofria, o que o levou a passar por um profundo momento de luto. Momento este registrado nas páginas de A Anatomia de uma Dor.

Em sua dor e pesar, Lewis não aceita respostas prontas, fáceis e vazias para servir de consolação. O autor volta-se para Deus, questionando-O e até indignando-se com Ele, em um forte relato revelando toda a confusão mental e espiritual do seu luto. Há dúvida e revolta nesta obra, declarações fortes que o levam a dizer:

Por que ocupo minha mente com tamanhas imundícies e disparates? Será que tenho esperanças de que, se o sentimento se disfarçar de pensamentos, sentirei menos?

Sua experiência, conforme registrada neste livro, é a de um homem que tinha um profundo relacionamento com Deus e que não deixa de expressar a Ele a sua dor. Pode-se ler o livro e não concordar com tudo; afinal, temos que julgar todas as coisas e reter o que é bom (1 Ts. 5:21). Contudo, algo que não deve ser feito é deixar de reconhecer que este tipo de forma de expressão, a lamentação, existe na Bíblia.

O próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus, enquanto sofria na cruz volta-se ao Pai e pergunta porque O havia desamparado (Mt. 27:46); além disso, não se deve esquecer que, momentos antes no Getsêmani, pediu para que se possível fosse Seu Pai afastasse Dele o "cálice" de sofrimento e dor que deveria tomar (Ma. 14:36). Da mesma forma, há neste sentido de súplica e angústia alguns salmos de Davi (Sl. 6 ou 10, por exemplo) e as lamentações de Jeremias. Entretanto, ao longo da leitura do livro, a maior semelhança que reconheci na experiência de Lewis foi com a de Jó: embora paciente, ou seja, perseverando em sua fé, de forma que mesmo em meio a tantos sofrimentos, e mesmo reconhecendo a ação de Deus nisso, não O rejeitou, isto não impediu com que ele O questionasse, dizendo coisas sobre Ele que depois se arrependeu [1].

E assim como Jó (Jó 19:25), a leitura do livro mostra que, no final das contas, o autor não perde a sua esperança, e entre outras coisas reconhece que:

Deus certamente não estava fazendo uma experiência com minha fé nem com o meu amor para provar a sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não... Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender o fato foi colocá-lo abaixo.

Em suma: o sofrimento pelo qual estava passando era o "megafone de Deus" para sua vida, conceito este que ele próprio havia formulado em O Problema do Sofrimento.

A grande lição que tiro tanto da leitura do livro quanto dos exemplos bíblicos é aquela que acredito ser a mais óbvia: não se deve subestimar a experiência da dor ou do sofrimento. Deus é Bondoso, Justo e Amoroso, mas quando o sofrimento vem, não se deve "tapar o sol com a peneira", seja tanto com fórmulas mágicas quanto com frases positivistas de auto-sugestão: o problema está lá, a dor existe, é difícil e complicada; um momento de dúvidas e angústia onde muitas vezes não entendemos nem o porquê de Deus permitir com que passemos por isso. Sofrer não é fácil, e creio que não se deve fingir como se fosse.

Deve-se sim buscar o consolo de Deus, clamando por Sua ajuda e socorro, sempre tentando manter a lembrança de que Ele age no Seu tempo determinado para o propósito de Sua Vontade. Como já havia reconhecido no post anterior, quando sofremos, a coragem e a empatia valem mais do que muito conhecimento, e o mínimo matiz do Amor de Deus tem um valor inestimável.

Particularmente, também creio que Helen Joy Davidman fora um presente de Deus para C. S. Lewis, assim como ele para ela. E se mesmo soubessem que iriam viver este amor por um curto período de tempo, acredito que se pudessem escolher, eles não trocariam este presente por nada.

O livro A Anatomia de uma Dor (A Grief Observed), pode ser adquirido, por exemplo, aqui. Recomendo muito sua leitura, destacando a introdução escrita por Douglas Gresham, filho de Joy e enteado de Lewis.

[1] O Livro de Jó é um dos meus preferidos na Bíblia, e um dos que parecem ser mais deixados de lado atualmente na igreja evangélica brasileira. Eu já o comentei anteriormente, conforme registrado aqui.

4 comentários:

Aefe! disse...

Olá Cristiano,

Já li o problema do sofrimento, e gostei muito, embora tenha achado ele realmente denso e acadêmico. Estou agora mais curioso para ler A Anatomia de ua dor.

Tenho lido todos os seus posts sobre o Lewis, também sou fã. Mas este post em especial falou muito comigo... Fico pensando se uma resenha sobre o livro me impactou, que dirá o livro? rsrsr

Fica com Deus, irmão! As editoras do Lewis deverias patrocinar seu blog, rsrsrs

Cristiano Silva disse...

Olá André,

Pois é, parece que eu realmente tirei o mês para ler Lewis! Mas, por agora vou parar... pretendo ler agora um do Thomas Mann.

Cara, se as editores do Lewis publicassem sua trilogia espacial, isso já me deixaria muito contente! :-)

Recomendo o livro... é curtinho, leitura fácil, e bem barato. Compre se puder.

God bless.

Rodrigo Camargo disse...

Mais um ótimo post seu. Esse livro em especial vou preferir não ler, já que é demasiado triste (apesar de belo). O blog agora é só do C.S.Lewis? :-)

Abraço!

Juber Donizete Gonçalves disse...

Cristiano,

Gostei muito do seu blog. Também aprecio C.S.Lewis, estou terminando de Ler "Cristianismo Puro e Simples". Parabéns pela postagem.

Abraço,

Juber