segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Histórias sci-fi e a visão bíblica da condição humana, presente e futura

Ao longo dos anos, outro tema recorrente, que sempre encontrei em histórias de ficção científica (sci-fi), seja em livros ou HQ's, especula qual seria o "destino evolutivo" da humanidade, usando como premissa uma ideia otimista que afirma que estaríamos caminhando para nos tornarmos seres com capacidades tão desenvolvidas, que seríamos capazes de finalmente nos libertarmos da "opressão da matéria" (lê-se "nossos corpos"), evoluindo de tal forma que um dia faríamos todos parte de uma espécie de grande "entidade cósmica", ao abrirmos mão de nossas próprias personalidades. Penso que o conto A Última Pergunta de Isaac Asimov seria um exemplo de uma narrativa sci-fi criativa que trabalha nesta linha, assim como o livro O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke.

Em primeiro lugar, sempre achei que histórias assim acabam expondo a oposição errônea do tipo "corpo mau vs. espírito bom", uma ideia que parece às vezes causar confusão até mesmo entre os crentes em Cristo. Quando as Escrituras tratam da carne, elas falam do fato da nossa natureza humana se encontrar corrompida pela ação do pecado, disassociada da vida com Deus, satisfazendo apenas os nossos desejos contrários à vontade Dele. Contudo, isso não deve ser confundido com dizer que a Bíblia afirma que o nosso corpo é algo inerentemente ruim; muito pelo contrário, a Palavra mostra como ele também é criação de Deus, e tudo aquilo que o Senhor cria é bom. A oposição entre vida carnal e vida espiritual (Jo. 3:6; Rm. 8:5; Gl. 5:16,17) se dá portanto quando nascemos de novo em Cristo Jesus, no sentido de que somos espiritualmente regenerados por Deus, o que nos leva a convertermos de nosso caminho mau e nos esforçarmos a cada dia para matarmos o nosso "velho homem" (Rm. 6:6).

Além disso, quando a Bíblia declara que Jesus Cristo é "as primícias dos que dormem" (1 Co. 15:20) ela estabelece o fato de que a ressurreição física de Cristo, dentre outras coisas, serve como modelo e aponta para a nossa própria ressurreição futura, quando seremos transformados para a plenitude da vida eterna (1 Co. 15:51-52). Isso mostra que a Obra Salvífica do Filho de Deus se refere ao todo do ser humano, e não apenas ao nosso espírito. Afinal de contas, e como repito há tempos até mesmo neste blog, assim como não há seres humanos sem corpo, apenas fantasmas, da mesma forma não há seres humanos sem espírito, apenas cadáveres. Digo e repito: aos olhos de Deus não é só nossa alma que interessa, mas também o nosso corpo; Ele considera, salva e redime a pessoa total.

Os santos são aperfeiçoados e vão em espírito para junto de Deus após a morte, para uma existência pessoal e consciente ainda que não corpórea, mas esta é apenas uma condição temporária, um estado intermediário; a ressurreição final para a vida eterna é o nosso destino. Da mesma forma que hoje o Cristo Ressurreto tem um corpo físico (Lc. 24:37-43), incorruptível, capaz até de fazer coisas que hoje nossos corpos não fazem (Lc. 24:36), nós também o teremos. Logo, aquele que confia em Deus sabe que a morte não representa que o nosso corpo está agora fadado a ser para sempre descartado, mas pelo contrário, ele ainda será restaurado, tornando-se também incorruptível.

O outro ponto exposto nestas histórias, e que particularmente me incomoda mais, é a ideia de que perder a nossa individualidade para alguma coisa superior, seja divindade ou algum outro elemento cósmico/universal, é algo que representa o topo da escala evolutiva. Por que esta ideia de que a perda da personalidade, mesmo que em uma união cósmica aparentemente boa, representa o auge da evolução?

Além de ser uma ideia que não agrada aos meus ouvidos, isso contrasta com aquilo que é exposto na Palavra de Deus. Baseados na revelação bíblica, podemos afirmar que os cristãos não tem necessariamente problemas com a existência do Eu em si, mas sim com o Eu Escravo do Pecado, ou o Eu Inimigo de Deus. A morte e ressurreição de Jesus resolvem este problema, pois representam a derrota da morte, do pecado e do Diabo, mas não da noção do homem enquanto indivíduo; a Obra de Cristo representa a restauração da condição humana, em pleno relacionamento com o seu Senhor e Criador, e não a sua destruição. Mediante ação do Espírito Santo, somos misteriosamente e sobrenaturalmente unidos com Cristo, formando com Ele um Corpo, que é a Igreja, onde somos os membros e Ele a Cabeça (1 Co. 11:3; Ef. 5:23), mas ainda assim considerados como pessoas renovadas, com diferentes dons e dependentes Dele, e não como "não pessoas". As Escrituras mostram que fomos criados como imagem e semelhança de Deus, e assim como Ele é um Ser Pessoal, nós também somos seres pessoais, e continuaremos a ser mesmo após a glorificação futura.

Isto posto, a Bíblia refuta tanto a ideia do corpo como elemento ruim quanto a noção de uma metamorfose para alguma espécie de impessoalidade. Considerando que a Bíblia mostra que os novos céus e a nova terra prometidos não são compostos por um monte de almas penadas sussurando e voando para um lado e para outro, tampouco por uma única entidade, mas sim por pessoas (1 Ts. 4:14-17; Ap. 21:3,4), o cenário futuro descrito é o de uma humanidade redimida pelo Senhor, em plena comunhão com Ele, livre da escravidão do pecado e de seu salário, que é a morte.

Às vezes, de maneira despercebida, os crentes podem ser influenciados por outras tendências de pensamento, perdendo assim o ponto de vista bíblico. Por isso penso que é importante que todos os cristãos comprometidos com as Escrituras tenham estes conceitos bem entendidos, a fim de dar um testemunho de qualidade tanto à respeito da nossa condição presente quanto da plenitude futura, assim como da verdadeira maneira como Deus considera a Sua criação humana, segundo revelado na nossa regra de fé e prática, a Bíblia Sagrada.

5 comentários:

Wesslen Nicácio disse...

Parabéns pelo texto, Cristiano.

Sem dúvidas, as perspectivas de evolução humana apresentadas em estórias Sci-Fi são equivocadas e não condizentes com o propósito divino para a humanidade.

Acredito que dois bons livros que também expõem este esclarecimento (acho que você os conhece) são "A abolição do homem" e "Aquela força medonha", ambos de C. S. Lewis. No primeiro, uma abordagem teórica da questão; no segundo, o tratamento ficcional do problema.

Não me lembro se é ou não em um dos sermões de "O peso de glória" que C. S. Lewis também aborda a questão da importância de cada um de nós para Deus e de como cada individualidade "enriquece" as outras por sua especificidade e diferença.

No mais, parabéns pelo blog e, novamente, pelo texto tão bem explicativo e fundamentado.

Cristiano Silva disse...

Oi Wesslen,

Seus comentários foram tão bons quanto o meu texto ;-)

God bless.

Rodrigo Camargo disse...

Cris,
Acredito que somos individuais e a individualidade de cada pessoa é percebida por Deus, porém, quando Cristo nos deixou a mensagem de amar uns aos outros e onde estiverem dois ou três reunidos em nome de Jesus ali Ele estará, a minha opinião sobre individualidade mudou um pouco.

Acredito que a maior importância que devemos dar na nossa vida cristã deva ser a igreja, a Eclesia, união de pessoas em busca de Cristo. Buscar a Jesus significa estar junto a outras pessoas. Nesse sentido, a individualidade não significa tanto assim, pois a noiva de Cristo é a igreja, que são os fiéis reunidos, comungando, tomando a santa ceia em nome Dele e participando ativamente uns com os outros.

Cristiano Silva disse...

Oi Rodrigo,

Acho que entendi o seu ponto quando você fala da importância da igreja, e fico feliz que pense assim, em um tempo onde a imagem do "cristão sem igreja" é passado como sendo um exemplo de progresso, sendo que na verdade é apenas um retrocesso com uma carapaça cult; afinal, a comunhão no estudo e culto com os irmãos na comunidade visível e local, seja pequeno grupo em casa ou parte de uma instituição formal, também é um meio usado por Deus para nos abençoar, e eu experimento isso na minha vida. Obviamente, o que devemos considerar é se esta comunidade ensina de forma correta as doutrinas bíblicas, se tem a Palavra como referência ou não, entre outras coisas. E se o critério não passar, aí recomendo mesmo que procure outra.

Penso que igreja é lugar de indivíduos em comunhão, mas ainda assim indivíduos; acho que o problema que pode afetar a comunhão é o pecado do individualismo, do egoísmo, mas não o conceito de personalidade em si, que é criação de Deus. Acho que você focou neste ponto do individualismo, ou seja, da pessoa que não quer se misturar com ninguém, faz o que está na cabeça sem levar em consideração a visão dos outros e pronto acabou. O meu foco no post é a da defesa da noção em si de indivídulo, pessoa: o meu problema é com as filosofias que tentam vender a ideia de que perder a nossa personalidade, o nosso Eu, é um avanço, o que para mim não é, pois o Eu também é criação de Deus.

Não é isso o que a Bíblia ensina, nem em questão de como seremos na realidade futura que a Bíblia ensina. E na realidade presente, mesmo quando você é regenerado por Deus e nasce de novo, você nasce uma nova criatura, mas continua sendo uma "criatura", uma pessoa, e não uma "não pessoa".

Após minha glorificação, ficarei feliz de ver não só que estou finalmente livre do pecado, mas que também eu continuarei a ser eu, agora em pleno relacionamento com Deus.

[]'s

Cristiano Silva disse...

Uma última observação na discussão, que considero muito relevante: isso tudo que falei mostra como o Cristianismo é a religião que verdadeiramente valoriza o ser humano, a pessoa total. Por "valorizar" não quero dizer "divinizar", dar um status que ele não tem, mas sim colocar os homens e mulheres em seu devido lugar: são imagem e semelhança de Deus, a coroa de toda a Criação, alvo do Seu Amor, e sustentados pelo Senhor, serão assim, para sempre.

Isso tudo fora considerando o maior fato de todos: Deus, na Pessoa do Seu Filho, tornou-se um de nós, encarnando-se, nascendo Jesus Cristo. E apesar de hoje Cristo, ressurreto, ser glorificado como Filho de Deus, Ele continua sendo ser humano completo e total, e o será para sempre. Deus tornou-se Homem por amor de nós, por amor ao gênero humano, para toda a eternidade!

Ora, prova de amor é isso, o resto é brincadeira...