Particularmente, a recente reformulação dos títulos da DC Comics pegou-me de surpresa, e a impressão que tive foi que ela ocorreu muito "de repente". Digo isso porque nada indicava, pelo menos para mim, que tal coisa aconteceria: o Superman havia relativamente acabado de receber uma nova origem oficial, inclusive com a Legião dos Super-Heróis devidamente restabelecida na mitologia do herói; o Batman estava praticamente em início de uma nova fase com o conceito Batman Incorporated; o novo Multiverso de 52 realidades paralelas, resultante da saga Crise Infinita, nem havia sido explorado direito; o Superboy tinha acabado de receber um novo e bom direcionamento em um título próprio; e mesmo com tudo isso acontecendo eles decidem mudar tudo de novo? Além disso, os teasers iniciais da série Flashpoint mostram que, aparentemente, ela tinha inicialmente outra finalidade, diferente da de ser a história pivô da reformulação como acabou sendo.
Em todo caso a mudança aconteceu assim mesmo, e provavelmente veio para ficar: naquilo que ela chama de The New 52, a DC lançou 52 novas edições [1], algumas renumeradas, incluindo as tradicionalíssimas Action Comics e Detective Comics, e com isso reformulou todo o seu Universo dando início ao que informalmente é denominado DC New Universe, ou DCnU, com uma estratégia comercial nova e até agora bem sucedida onde as edições digitais são lançadas no mesmo dia em que as tradicionais chegam nas lojas. Além disso, a mudança também envolveu a incorporação de elementos da linhas Wildstorm e Vertigo em seus títulos, criando assim revistas com histórias de enfoque mais sombrio e mais violento, talvez com a intenção de agradar diferentes tipos de leitores com revistas para todos os gêneros dentro de um mesmo selo.
Entretanto, alguns já notaram que as próprias revistas mais clássicas dos heróis da editora também adquiriram tons mais violentos [2] e sombrios [3]. E talvez com o desejo de seguir a tendência esperrrta do mundo muderno em sua preferência por mais sensualidade e/ou sexo em histórias, algumas delas também carregaram em cenas mais ousadas que devem ter feito a alegria de muito marmanjo por aí, mas que acabaram com razão sendo alvo de críticas [4]. De minha parte, concordo com as críticas, e dou graças a Deus de ainda ver gente neste mundo com um pouco de bom senso.
Como resposta à uma controvérsia deste tipo levantanda em uma de suas histórias, a editora afirmou: prestem atenção às classificações etárias quando pegarem quaisquer revistas para leitura própria ou para crianças. À bem da verdade, eu já notava que histórias de super-heróis já mudavam de tom há algum tempo, e mesmo desejando que as coisas fossem diferentes, concordo com a colocação da editora, considerando que pelo visto a tendência infelizmente das coisas seja esta mesmo. Só espero que os pais e responsáveis realmente prestem mais atenção nisso.
Obviamente que toda mudança na vida acarreta em perdas e ganhos, pontos positivos e negativos, e com a DCnU isso não foi diferente. Ainda existe alguma confusão e dúvida sobre o que foi apagado ou mantido na nova cronologia, mas dentre outras "perdas" além dos pontos mudernos anteriores eu destacaria também a reformulação dos personagens Superboy e Red Robin, que para mim ficaram bem descaracterizados; especialmente o segundo, que parece ter se transformado em ex-sidekick do Gavião Negro ao invés de ex-sidekick do Batman.
Se me perguntarem se fiquei empolgado com toda esta reformulação, eu diria simplesmente que não, talvez porque eu esteja já um pouco saturado com este tipo de coisa, além de perceber certas tendências cada vez mais presentes mas que particularmente não gosto de ver em gibis, ainda que eu aceite e entenda que, ao contrário de mim, o mundo gosta e aceita [5]. Sendo assim, em meio às 52 opções da DCnU disponíveis por mês, foram bem poucos os meus títulos escolhidos, segundo meu interesse, gosto e disponibilidade financeira, e que compro digitalmente via Comixology. Comento algo sobre eles à seguir:
Action Comics - explicou-me certa vez um bom e distinto colega de trabalho, grande conhecedor de tudo relacionado ao Superman, que Grant Morrison, o aclamado e ocasional polêmico escritor desta nova série, estava trazendo de volta o Superman original de Jerry Siegel e Joe Shuster. Lendo a revista, indubitavelmente um dos destaques da DCnU, comecei a compreender melhor esta colocação: mostrando o início da carreira super-heróica de Clark Kent em Metrópolis, a HQ apresenta um Superman mais atrevido, com seus super poderes ainda não totalmente desenvolvidos, mais antenado com questões sociais e visto com desconfiança pelo Governo e pela polícia. Em uma recente entrevista, Morrison explicou:
O Superman representa a justiça, e não necessariamente a lei. E eu acho que é isso que faz este cara ser diferente. Mas como você sabe, eu estou apenas pegando este aspecto da versão original de 1938, que era o Superman original. [...] aquelas histórias se passavam em um mundo real convincente, e o Superman estava lidando com a corrupção e a lei e os policiais e o Congresso, tanto quando ele estava lidando apenas com o crime nas ruas e a violência cotidiana. Assim, ele sempre teve aquela justiça social, e nós estamos apenas pegando isso de volta. Eu acho que neste momento nós estamos todos nos sentindo desta maneira. Ninguém tem mais muita fé em seus líderes eleitos da mesma maneira que eles tinham. [...] Então estamos pegando isso de volta dos anos 30, quando as pessoas duvidavam, e uma porção de pessoas estavam perdendo os seus empregos e seus meios de sustento, e compreendendo que havia corrupção em altos escalões.
Neste sentido, a revista tem se mostrado bem interessante, valendo a pena ser acompanhada. Achei a primeira edição muito boa, e considerando que o histórico do escritor com o personagem é bem positivo com a premiada All Star Superman, esta nova série promete.
Superman - o problema não foi o novo uniforme do Homem de Aço, que parece ter abandonado de vez a velha "cueca vermelha para fora da calça azul" (até mesmo no novo filme que está sendo produzido) e adotado o novo estilo da DCnU usando uma roupa tipo "armadura" mas que me lembra um uniforme militar sci-fi; da mesma forma, o problema não foi a nova postura que percebi, mais séria e grave, e que já me fez sentir saudades de outros tempos.
Nada disso: o problema foi que achei esta primeira edição tão chata, mas tão chata, que eu só me animei em terminar de lê-la dias depois, coisa que comigo nunca tinha acontecido antes. E nem me dei o trabalho de comprar a segunda edição.
Esta primeira edição foi realmente decepcionante, e eu não sou o único com esta opinião. Espero que as coisas melhorem na revista do maior dos super-heróis. Enquanto isso não acontece, pretendo continuar deixando esta série de lado.
Aquaman - não que eu considere Geoff Johns um escritor brilhante, mas que ele geralmente faz histórias que gosto muito de ler, isso não posso negar. Tenho alguns de seus trabalhos nas séries da Sociedade da Justiça, do Lanterna Verde e do Flash, e como já comentei anteriormente, ele conseguiu transformar até mesmo a revista do Gladiador Dourado, pelo menos no que se refere ao meu gosto, em uma série boa e interessante. Entre outras proezas, ele até mesmo me fez comprar uma famosa saga de super-heróis vs. zumbis, e eu simplesmente odeio histórias com zumbis [6]. Realmente, méritos para ele.
Dentre outras coisas, Geoff Johns assumiu um grande desafio na DCnU: ser o escritor titular da nova série do Aquaman, talvez um dos heróis mais famosos e ao mesmo tempo menos respeitados dos quadrinhos.
Pelo que vi/li até agora, posso dizer que Johns não decepcionou nesta empreitada. A primeira edição da nova série do Aquaman é simplesmente excelente, com uma qualidade reconhecida em reviews especializados. É a melhor HQ que já li no ano, e com certeza a melhor história do personagem que já li. A segunda edição continuou com a mesma premissa básica, simples e eficiente, e também é muito boa. Torço pelo sucesso de Johns nesta novo desafio que, até agora, está dando certo.
E à propósito: sim, o Aquaman come peixe.
Liga da Justiça - finalizo com aquela que na verdade foi a primeira de todas as edições da DCnU, juntando os maiores super-heróis do seu Universo contra um dos seus maiores vilões, em uma revista com arte do aclamado Jim Lee e escrita por nada menos do que o Chief Creative Officer da DC Entertainment: ele mesmo, Geoff Johns. No momento em que vi pela primeira vez o anúncio desta nova série, não pude evitar a lembrança e a comparação com outra edição histórica, lançada no início dos anos 1990: X-Men #1, escrita por Chris Claremont e também desenhada por Jim Lee, e considerada pelo Guinness Book a HQ de maior número de vendas da história.
Recordes à parte, e mesmo considerando que em retrospecto X-Men #1 é melhor, achei que a nova série da Liga da Justiça de Lee e Johns é consistente e boa o suficiente; uma HQ no velho estilo heróis contra vilões, sem polêmicas, com uma arte de grande qualidade e uma história bem escrita, mesmo que sem ser brilhante. A história enfoca o que seria a primeira reunião da equipe no DCnU, e para mim o destaque da trama até agora tem sido o Batman: completamente seguro de si, ele não liga para o fato dos seus companheiros duvidarem de suas capacidades, e mostra como não é necessariamente preciso ter um super poder para ser um super-herói, e ainda vital em uma equipe como esta.
Isso porque, afinal de contas, o Batman é o cara.
[1] Haja dinheiro para o fã mais fiel acompanhar tudo isso!
[2] Ver item 9 deste link.
[3] Ver item 6 deste link.
[4] Ver item 4 deste link.
[5] Como cristão reformado, sinto-me na contracultura de várias coisas, graças a Deus. Que Ele continue me moldando a me amadurecendo neste sentido.
[6] Também detesto histórias com vampiros, diga-se de passagem.





2 comentários:
Olá Cristiano. Acompanho o seu blog há tempos, mas somente agora resolvi comentar suas postagens. Também sou cristão reformado e fã de histórias em quadrinhos. Li meu primeiro gibi em 1981, uma aventura do Demolidor do Frank Miller. Acompanhei o universo das HQs durante os anos 80 e 90. Hoje ando meio afastado. Por isso, curti sua postagem. Revivi muita coisa legal e fiquei interessado em ler coisas novas. Um abraço e continue com o blog.
Anos 80 eram bons em matéria de quadrinhos, não? Muita coisa legal rolou naquela época. Anos 90 também, mas ... muita coisa estranha rolou naquela época!
O que mais você gostava de ler?
E obrigado pelas palavras!
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