sábado, 26 de novembro de 2011

Perelandra

É com muita alegria que vejo a Martins Fontes corrigindo aquilo que considerava ser um grande erro, ao publicar no Brasil os livros que compõem a Trilogia Espacial de C. S. Lewis. Recentemente a editora lançou o segundo livro da Trilogia, Perelandra, e motivado com esta publicação retirei da minha "fila" a minha bonita edição da coleção Scribner Classics e lancei-me à tarefa de continuar com a história de Elwin Ransom, o herói filólogo inspirado em Tolkien, amigo do autor, e que desta vez viaja para Vênus, ou o planeta Perelandra, com uma difícil missão: impedir que a Queda ocorra naquele lugar primevo e paradisíaco, o que faria com que a espécie nascente naquele mundo fosse corrompida pelo pecado.

A leitura do livro foi-me muito prazerosa, mas ao mesmo tempo não foi fácil. Digo isso não somente por conta das dificuldades que encontrei ao ler o texto no original em inglês, com Lewis usando extensivamente de um vocabulário todo voltado para descrição de paisagens no contexto do louco landscape venusiano; no final, com muita paciência e um bom dicionário consegui superar este obstáculo, e checando algumas ilustrações disponíveis na Internet pude verificar que imaginei as coisas de forma mais ou menos correta, conforme descrito no livro. A dificuldade maior encontrada é intrínseca à própria obra: em Perelandra, C. S. Lewis escreveu uma narrativa ficcional carregada de significados e reflexões, e que leva o leitor, especialmente o leitor cristão, a boas meditações filosófico-teológicas sobre nossas relações interpessoais e com Deus; algumas delas, confesso, ainda não acabei, o que é até normal acontecer comigo todas as vezes que leio um livro de C. S. Lewis. Neste sentido, achei Perelandra mais "pesada" que outras obras suas de ficção que já li, como Cartas de um Diabo a seu Aprendiz ou A Última Batalha.

Eu gostaria muito de conseguir reler o livro em breve, especialmente depois de ver algumas análises a fim de compreender melhor alguns pontos apresentados na história [1], especialmente no que se refere ao desfecho do embate Ransom vs. Weston, este último um personagem do livro anterior agora dominado por forças demoníacas e enviado para garantir que o primeiro casal do planeta rebele-se contra Maleldil, ou o próprio Senhor Deus conforme apresentado por Lewis nesta Trilogia.

De qualquer forma, destaco à seguir dois trechos de Perelandra que particularmente gostei muito. O primeiro deles se refere à criação de histórias, um assunto que me interessa bastante no contexto do tema imaginação e Cristianismo. Com a resposta dada pela Dama (ou a "Eva" de Perelandra), dirigida ao Não-Homem Weston, que por sua vez esmerava-se por torná-la mais "sábia" levando-a a desobedecer a ordem de Deus de não viver na chamada Terra Firme, não estaria Lewis traçando alguns limites que separam a boa de uma má história?  

Eu não fujo do ato de se fazer histórias, ó Estranho [...] mas desta história que você colocou na minha cabeça. Eu mesma posso fazer histórias sobre as minhas crianças ou sobre o Rei. Eu posso fazer uma em que o peixe voa e os animais do campo nadam. Mas se eu tentar fazer uma história sobre viver na Terra Firme, eu não sei como fazê-la em relação a Maleldil. Pois não posso contar uma em que Ele mudou a sua ordem. E se eu fizer uma em que nós estamos vivendo lá contra a Sua ordem, isso é como fazer o céu ficar todo preto e a água ficar como se não pudesse ser bebida e o ar como se não pudesse ser respirado. Mas também eu não vejo qual é a alegria de se tentar fazer estas coisas.

No segundo trecho, encontrado pouco mais adiante na narrativa, o Não-Homem ainda tenta, sutil e astuciosamente (como o Diabo em Gn. 3:1 e Mt. 4:1-11), convencer a Dama que sua desobediência seria algo até esperado por Deus, algo que Ele considerava necessário e até desejava para suas criaturas, apesar de não o dizer, tendo em vista o seu amadurecimento. Neste momento Ransom intervém, e com sua afirmação Lewis traz à tona em seu texto uma característica da relação Criador-criatura:

Eu acho que Ele fez uma lei deste tipo para que houvesse obediência. Em todos estes outros casos o que você chama obedecer a Ele significa fazer antes de tudo aquilo que também é bom aos seus próprios olhos. Mas o amor fica satisfeito com isso? Você procede assim porque elas são, realmente, a Sua vontade, mas não somente porque elas são Sua vontade. Onde você pode experimentar a alegria de obedecer à menos que Ele comande você a fazer algo onde a única razão para tanto é que Ele assim o quer? Quando falamos da última vez você disse que se você ordenasse aos animais para andaram de cabeça para baixo, eles fariam isso alegremente. Assim eu sei que você entende o que eu estou dizendo.

Pelo visto, a publicação no Brasil da Trilogia Espacial lewisiana encerra-se no segundo semestre de 2012 com o lançamento do último livro, Aquela Força Medonha. Enquanto este ainda não chega, Perelandra por si só já oferece ao leitor combustível suficiente para reflexão e aprendizado. Recomendo muito a leitura deste livro, com toda a certeza uma figura de destaque entre todos os seus trabalhos.

[1] E se alguém tiver outras indicações para me dar, agradeço.

4 comentários:

Rodrigo disse...

Agora fiquei com vontade de ler esse livro de novo! hehe

Muito bom e cheio de coisas para pensarmos.

Parabéns pelo post.

abraço!

Cristiano Silva disse...

Obrigado, Rodrigo!

[]'s

Calebe disse...

De C.S.Lewis só li algumas das crônicas de Nárnia e "A abolição do homem". Já tinham me recomendado Perelandra, mas nunca com tanta força. Está adicionado à lista de livros que devo ler em breve :-).

Cristiano Silva disse...

Oi Calebe,

Fique à vontade, e use o marcador "C. S. Lewis" do meu blog para conhecer outros de seus maravilhosos livros ;-)

God bless.