Como cristão protestante reformado, eu creio que seremos julgados por Deus pelas nossas obras (Hb. 9:27; Ap. 20:11-15). Aliás, só faz sentido falarmos em "julgamento" quando falamos em "obras". Afinal de contas, dada uma determinada acusação, tribunais existem para o exame público das atitudes de um indivíduo, ou seja, quais fora as suas "obras". Da mesma forma, em um momento futuro os livros serão abertos e nossos atos, aquilo que fizemos, falamos e pensamos, serão publicamente postos em evidência (Lc. 8:17) e analisados como em qualquer tribunal; e como em qualquer tribunal, receberemos uma sentença. A grande diferença reside no fato de que o tribunal não é humano, mas sim do Santo e Justo Deus, que verdadeiramente conhece todas as coisas e que não é homem para cometer erros.
Entretanto, como cristão protestante reformado também creio que "já nenhuma condenação há" (Rm. 8:1); não porque seremos considerados inocentes (ninguém o será: Sl. 51:5; Rm. 3:23), mas porque, unidos com Cristo, Sua Justiça nos cobre (1 Co. 5:21), Sua retidão nos é imputada. Em outras palavras: somos justificados [1] mediante a fé (Rm. 5:1), salvos não por obras mas sim pela graça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo (Rm. 3:24), que cumpriu perfeitamente a Lei e pagou a dívida do nosso pecado diante de Deus (Cl. 2:14).
Existem aqueles contudo que defendem a ideia de que somos salvos pelas nossas obras, no sentido de que "obedeço e faço coisas boas portanto sou aceito". Seguindo esta lógica, nossa Salvação acaba sendo determinada pelo que nós fazemos. Neste sentido, seria correta a afirmação que ouvi anos atrás de que se a salvação é por meio da fé, e se o "ter fé" já é em si mesmo uma ação, então em última instância a Salvação seria mesmo por nossas obras, e o mérito de sermos salvos todo nosso. Isso casa bem com o conceito de religião, mas não do Evangelho, e o conhecido texto de Efésios 2:8-10 deixa claro que não é isso o que ocorre:
Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.
Ora, só o fato da Palavra afirmar que a fé é um dom de Deus já mostra como em última instância a causa de sermos salvos é a Graça e não nossos atos. Como se isso não bastasse, o apóstolo Paulo ainda afirma que mesmo as nossas boas obras não vem de nós, mas foram antes de tudo preparadas pelo próprio Deus, para nós. Logo, o conceito biblicamente correto é: "sou aceito e portanto obedeço".
Há ainda outro aspecto que causa confusão e precisa ser bem compreendido: a fé não é a base de nossa Salvação, e ela em si mesma não salva ninguém. A causa da nossa Salvação é a Graça de Deus; a base, a Obra de Cristo na História; e o meio pela qual somos salvos pela Graça em Cristo Jesus, a nossa fé.
Em A Obra consumada de Cristo, um livro que considero simplesmente fundamental em minha coleção [2], Francis Schaeffer explica muito bem esta doutrina bíblica. Ao comentar o fato de que Deus não nos trata como máquinas mas sim como seres racionais e morais, conforme Ele mesmo nos criou, Schaeffer mostra que apesar da morte de Cristo ser cobertura eficiente e suficiente para nossos pecados, ela não se aplica a todos, mas sim somente àqueles que Nele creem (Rm. 1:16; 3:26). Existe uma condição necessária: Deus justifica todos aqueles que pela fé aceitaram a Cristo como seu Salvador. E neste sentido, ele diferencia a base do meio, o instrumento de nossa Salvação:
Há dois fatores na salvação: a base e o instrumento. A base da nossa salvação é a obra consumada de Jesus Cristo, sem necessidade de absolutamente nenhum acréscimo de qualquer tipo de boa obra humana nesta escala. Mas o instrumento, pelo qual compartilhamos desta salvação, é a nossa fé, o crer em Deus. Nossa fé não tem valor para a salvação. Não somos salvos com base na nossa fé. Somos salvos exclusivamente com base na obra consumada de Jesus Cristo. Mas o instrumento pelo qual compartilhamos disso é a nossa fé. A nossa fé nos une à salvação que Cristo nos oferece. A nossa fé são mãos vazias que aceitam o presente da salvação.
Nossa fé não tem valor salvífico. As nossas boas ações religiosas, as nossas boas ações morais, não tem valor salvífico, pois não são perfeitas. Seria necessário que sofrêssemos infinitamente, porque pecamos contra um Deus infinito; e, é claro, nós, que somos finitos, não podemos sofrer infinitamente. A única coisa em todo o universo moral de Deus que tem o poder para salvar é a obra consumada de Jesus Cristo. A nossa fé aceita o presente, e Deus justificará todos aqueles que creem em Jesus (Rm. 3:26).
[...] Pelos padrões humanistas do mundo moderno, o evangelho é decididamente "não-humanista". Se a minha fé tivesse valor salvífico, se o meu sofrimento tivesse valor salvífico, se as minhas obras piedosas tivessem valor salvífico, se as minhas obras morais tivessem valor para salvação, então eu poderia vangloriar-me diante de Deus. Como Paulo nos explicará em (Rm.) 4:4, há quem ache que Deus pode estar em dívida conosco, e grite "exijo o meu direito!" Mas, como vimos até este ponto em Romanos, nós humanos estamos todos em uma situação decididamente não-humanista. Todos nós pecamos. Todos nós nos rebelamos. E, já que pecamos e nos rebelamos contra um Deus infinito, somos infinitamente culpados. Há uma só esperança para nós - a graça de Deus. Isso não significa que Deus possa fechar os seus olhos para os nossos pecados, mas que Deus nos deu a graça de enviar o Redentor, a propiciação, aquele que derramou o seu sangue. Eis aí a nossa única esperança. Já não resta espaço para jactância.
Adicionalmente, o pregador comenta o verso de Romanos 3:28, que afirma como somos justificados pela fé, independentemente das obras da lei, uma verdade bíblica (e não invenção dos reformadores!) que precisa ser proclamada e defendida enquanto vivermos:
Esta é a grande conclusão de Paulo, e este versículo foi decisivo para a intepretação de Martinho Lutero do evangelho. Considerando que Lutero viveu centenas de anos depois de a Igreja Católica Romana ter passado a atribuir tanta ênfase às obras, e em uma época de crescente humanismo, você pode perceber porque este versículo se tornou o seu grande grito de guerra. Este era o versículo predileto de Lutero, e deveria ser o nosso também. Nós deveríamos ficar com o coração cheio de gratidão, toda vez que nos lembrarmos de que somos, na verdade, "filhos da ira, como também os demais" (Ef. 2:3), mas fomos eternamente salvos pela graça, através da fé. Isto deveria esmagar qualquer tipo de frieza ortodoxa, como um prato sendo quebram em mil pedaços no chão. Como podemos ficar frios diante desta grandiosa verdade?
"O importante é ter fé" é uma frase bastante popular, mas que não concordo inteiramente. Claro que considero a importância da fé, mas quando reflito sobre as diferenças entre a causa, a base e o meio/instrumento de minha Salvação, penso que o fundamental, aquilo que faz mesmo toda a diferença, não é a fé em si mesma mas sim o objeto de nossa fé, que deve ser simplesmente o próprio Deus, na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Digo isso no sentido de que acho o "ter fé na fé" um erro muito comum que deve ser evitado pelo crente. O pensamento correto é que a fé autêntica é aquela que nos leva a Cristo.
[1] Percebam como há uma grande diferença entre ser "inocente" e "justificado".
[2] Quem ainda não comprou ou não leu, sugiro fortemente que o faça logo.

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